Candidaturas Femininas à Câmara Caem 24% em 2026, Apesar de Cotas e Leis
Dados recentes revelam um recuo significativo no número absoluto de mulheres que buscam cadeiras na Câmara dos Deputados, reacendendo o debate sobre a efetividade das políticas de inclusão.
Em um cenário que desafia as expectativas e a legislação de incentivo à participação feminina, o Brasil registrou uma queda de 24% no total de candidaturas de mulheres para a Câmara dos Deputados nas eleições de 2026, em comparação com o pleito de 2022. Os números, divulgados em maio pela Câmara e confirmados por análises recentes, mostram que o contingente de candidatas a deputada federal passou de 3.717 para 2.820. Este recuo absoluto acende um alerta sobre os obstáculos persistentes à plena representatividade de gênero na política nacional.
Apesar da diminuição no número total de inscritas para as cadeiras de deputadas federais, a proporção de mulheres entre todos os concorrentes ao cargo subiu ligeiramente de 35% para 36,7%. No entanto, essa pequena ascensão percentual não mascara o desafio mais amplo. O país, onde mulheres representam 52% do eleitorado, ainda as vê ocupando apenas cerca de 18% das vagas no Congresso Nacional, posicionando o Brasil com a menor representação feminina na política entre os países da América Latina.

A coordenadora da Bancada Feminina da Câmara, deputada Talíria Petrone (PSOL-RJ), expressou profunda preocupação com a queda, enfatizando que é preciso ir além das cotas formais e buscar mecanismos realmente eficazes para garantir a presença feminina. O arcabouço legal brasileiro já prevê a reserva de 30% das candidaturas para mulheres e a destinação de, no mínimo, 30% dos recursos do Fundo Partidário e do tempo de rádio e TV para suas campanhas. Contudo, a pesquisadora Daniela Matos, do Instituto Esfera, aponta uma falha crucial: a falta de fiscalização na distribuição dessas verbas. “O sistema de cotas até garante que a mulher seja candidata, mas não dá condições para a eleição. Não dá condições e um dos motivos é a falta de acesso ao Fundo Partidário”, afirma Matos.
Essa dificuldade de acesso a recursos e apoio partidário soma-se a barreiras culturais e sociais significativas. O trabalho doméstico e a responsabilidade com a família ainda recaem majoritariamente sobre as mulheres, tornando a dedicação contínua exigida pela vida partidária, que frequentemente ocorre à noite e nos fins de semana, um obstáculo quase intransponível. Além disso, a violência política de gênero emerge como um fator desestimulante, com ameaças, assédio e desinformação nas redes sociais buscando afastar mulheres da disputa. O Ministério Público Eleitoral (MP Eleitoral) acompanha 419 casos de violência política de gênero e já apresentou 93 denúncias à Justiça, ressaltando a persistência do problema mesmo cinco anos após a Lei 14.192/2021 criminalizar a prática.
Em um avanço recente, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu por unanimidade, em 19 de agosto de 2026, ampliar a Lei Maria da Penha para incluir a violência política de gênero, garantindo proteção a mulheres fora das relações afetivas, inclusive em espaços públicos e políticos. Paralelamente, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou suas resoluções para as eleições de 2026, com foco em financiamento de campanha, segurança de candidatas em risco e combate à violência digital, incluindo limites ao uso de inteligência artificial para manipular conteúdos.

Apesar do cenário desafiador na Câmara, o Senado Federal apresenta um contraste interessante: o número de candidatas para o Senado aumentou para 69 em 2026, superando os pleitos anteriores, e pela primeira vez desde 2014, todos os estados contam com pelo menos uma mulher na disputa. Esta disparidade entre as duas casas legislativas sublinha a complexidade da representação feminina e a necessidade de análises mais aprofundadas sobre os fatores que influenciam a participação em diferentes níveis e esferas do poder. A luta por um parlamento que espelhe a diversidade da sociedade brasileira continua sendo um desafio central para a democracia.
Como garantir que as mulheres, maioria no eleitorado, não sejam minoria nas urnas e nos espaços de decisão? O TrickNet News 24/7 continuará acompanhando de perto os desdobramentos desta questão crucial para o futuro político do país.


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