Quilombolas buscam reparação bilionária em Paracatu
Comunidades afetadas por mineradora negociam acordo bilionário de reparação socioambiental em Minas Gerais.
Até que ponto a expansão da atividade mineradora pode avançar sobre territórios tradicionais sem a devida reparação às famílias afetadas? A questão centraliza o drama vivido por gerações de comunidades quilombolas no município de Paracatu, em Minas Gerais, que aguardam há décadas por justiça após perderem suas terras ancestrais.
O problema ganhou novos contornos na última semana, quando o procurador regional da República José Adércio Leite Sampaio esteve na cidade para buscar um acordo com a multinacional canadense Kinross Gold Corporation. A empresa instalou estrutura e barragem de rejeitos no território para explorar uma mina de ouro e prata conhecida como Morro do Ouro, impactando diretamente as comunidades quilombolas do Machadinho, de Amaros e de São Domingos, totalizando cerca de 1,3 mil famílias.

A avó Antônia, nascida e criada no Quilombo do Machadinho, morreu aos 99 anos sem ver a reparação que tanto esperava após deixar sua terra. Sua neta, Claudinês Lopes, de 32 anos e presidente da associação de moradores local, relata que cresceu ouvindo a matriarca desejar justiça. O território original foi tomado pela mineradora, e hoje muitas famílias vivem em situação de vulnerabilidade espalhadas por diferentes pontos da cidade e em municípios vizinhos. As negociações conduzidas pelo Ministério Público Federal (MPF) buscam o reconhecimento oficial das comunidades, a garantia de direitos territoriais e a definição de critérios para indenizações e reassentamentos. O valor estimado da reparação gira entre R$ 500 milhões e R$ 1,2 bilhão, com expectativa de um entendimento até novembro, após a suspensão de um julgamento por 60 dias. Em 2025, a empresa registrou um lucro líquido global de US$ 2,39 bilhões (o equivalente a R$ 14,73 bilhões), com quase 30% gerados pela unidade mineira em Paracatu. A estrutura possui capacidade licenciada para 750 milhões de metros cúbicos de rejeitos e, somada à Barragem Santo Antônio, acumula 1,2 bilhão de metros cúbicos na região. Avaliações técnicas do MPF também detectaram níveis elevados de arsênio em amostras de urina de moradores e no material particulado em suspensão no ar, além dos transtornos causados pelo barulho das operações e explosões.

Enquanto o advogado Guilherme Bicalho aponta que um julgamento realizado em agosto teve dois votos contrários às indenizações, a defesa reforça que o Código de Mineração determina a reparação obrigatória para propriedades afetadas. O advogado Guilherme Dolabella também criticou a lentidão do Judiciário e a sentença de 2014 que negou a existência de quilombolas na área, protegendo a exploração da empresa.
O procurador José Adércio Sampaio enfatizou que o objetivo do acordo em construção é resgatar a dignidade e assegurar uma justa indenização. As lideranças locais e moradores como a professora Maria Hermínia Rodrigues, da comunidade de Amaros, continuam mobilizados para que o desfecho traga a segurança e o reconhecimento negados por tantos anos.
Com informações de Agência Brasil (EBC). Leia a matéria original.


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